Na MT-240, em Paranatinga, região médio-norte de Mato Grosso, o avanço da colheita de soja esbarra em um problema recorrente: a falta de condições de trafegabilidade. Trechos da rodovia estadual se transformaram em atoleiros, travando o transporte da produção e deixando caminhões parados por horas — e até dias.

Com a logística comprometida, o reflexo é imediato no campo. Produtores enfrentam dificuldade para retirar a soja no ponto ideal, o que já provoca perdas de qualidade, redução de peso e ameaça a sequência da safra, inclusive a janela de plantio da segunda safra.

Na prática, a rotina é de espera e improviso. Caminhoneiros relatam que passam noites na estrada aguardando uma chance de seguir viagem. “Muitas noites se dorme”, conta Valter José da Silva, ao descrever a demora. Ele explica ao Patrulheiro Agro que a falta de tração e o excesso de barro impedem o avanço. Não tem tração o caminhão, é muito barro, para nesses treieiros aí, começa pegar o diferencial embaixo. Não tem como”.

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Além do tempo perdido, os danos aos veículos são frequentes. Entre uma viagem e outra, a ida à oficina já faz parte da rotina. Fila e mais fila aí e trava tudo”, relata Wanderson Cândido de Lima. Segundo ele, o problema atinge quem trafega nos dois sentidos da via. “Volta e meia a gente dá uma viagem e tem que ir para a oficina, pneu, mola… essa chuvarada… está feio”.

Prejuízo no campo

Enquanto a estrada trava, a colheita também para. Sem caminhões disponíveis, produtores não conseguem retirar a soja no momento certo e já convivem com perdas. Heliton Lima dos Santos afirma que a situação saiu do controle. Não conseguimos colher, já estamos com risco de perder soja”, diz o agricultor ao Canal Rural Mato Grosso. Ele relata que os caminhões ficam dias presos na estrada. Os caminhões que temos fica tudo na estrada, três dias atolados na fila para ser puxado”.

Dos 1,8 mil hectares cultivados nesta safra, cerca de 800 ainda aguardam colheita. Mesmo quando o tempo melhora, o trabalho não avança por falta de logística. Hoje o tempo está limpando, vai dar sol na fazenda, mas não vamos conseguir colher nada porque não tem caminhão”, afirma. Para ele, o problema poderia ter sido evitado com manutenção na seca. “Tinha que ter arrumado na época da seca, levantar, jogar cascalho, agora não adianta nada”.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Diante do cenário, o produtor já estima prejuízos significativos. “Se continuar desse jeito pelo menos uns 500 hectares nós vamos perder, está no limite não tem mais o que fazer”.

Efeito em cadeia

A dificuldade de acesso também afeta o frete e amplia os impactos. Conforme Ademilson Nogueira Monteiro, delegado da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso (Aprosoja-MT), muitos caminhoneiros evitam a rota, o que encarece o transporte e agrava a situação no campo. Ele explica à reportagem que o problema vai além do atraso. Nós estamos falando não só de uma soja que perde qualidade que entra no avariado, mas é uma soja que perde peso específico, ressalta, ao destacar que a demora também comprometeu a janela da segunda safra.

Para quem enfrenta a estrada, o prejuízo é diário. O caminhoneiro Jackson Furquim relata que precisou ser resgatado várias vezes ao longo do trajeto. “Três [atoleiros], tive que ser resgatado dos três”, conta. Conforme ele, além dos atoleiros, os danos aos veículos são inevitáveis. Vai pneu, estoura pneu em pedra, desgasta tudo… atolou aí e já está com dois dias que a gente está aqui e não vai não, choveu, acabou…”.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

A precariedade já ultrapassa a estrada e invade as propriedades. Em algumas áreas, a lavoura virou passagem improvisada para caminhões. “Virou uma estrada”, relata o agricultor Jair Ferigollo, ao destacar os impactos diretos na produção. A gente investe com calcário, com descompactação de solo. [O sentimento é de] indignação, porque está acabando com a lavoura”.

Nesta safra, ele cultivou 1.770 hectares e já contabiliza perdas. Em torno de 8 a 10%, com avariado, com perda de peso porque a gente não consegue colher na hora certa”, afirma. Para ele, a situação é inédita. “Há sete anos eu planto aqui e eu nunca vi um descaso como esse ano aqui”.

O problema, de acordo com produtores e empresários da região, é antigo e sem solução. Helisson Lima dos Santos pontua que a falta de infraestrutura compromete toda a cadeia produtiva. Você não consegue trafegar, perde produto na lavoura, você não consegue o mínimo, o básico que é conseguir retirar seu produto e colocar dentro do armazém”, diz. Ele reforça que não há justificativa para o cenário. “Não tem desculpa falar que é época de chuva. É um problema extremamente conhecido”.

Em nota, a Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística (Sinfra-MT) “informa que a empresa, que é responsável pela manutenção da malha viária de toda a região, atua em trechos de maiores necessidades e dando apoio para caminhões”.

FONTE/CRÉDITOS: canalrural